A Virgindade de Maria

1) Introdução

Jesus não é filho de José.

Leiamos a genealogia de Jesus em Mat 1, 1-17: “… Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo…”.

Comentário: Não é mencionado que José gerou Jesus.

Leiamos a genealogia de Jesus em Luc 3, 23-37: “Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou menos trinta anos e era, conforme se supunha, filho de José, filho de Eli…”

Comentário: O texto sagrado não afirma que Jesus era filho de José, mas que conforme o povo supunha ele era tido como filho de José.

Leiamos Mat 1, 18-20: “A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes de coabitarem, ela concebeu por obra do Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, resolveu repudiá-la em segredo. Enquanto assim decidia, eis que o anjo do senhor manifestou-se a ele em sonho, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo”.

Comentário: se José fosse o pai do filho de Maria, por que ele estava pensando em abandoná-la, se Maria já estava prometida em casamento a ele, isto é, já estava noiva dele, e se os filhos neste período eram considerados legítimos?

Maria teve outros filhos?

O Novo Testamento não conhece outros filhos de Maria e nem de José. Nunca em nenhuma passagem do novo testamento, ninguém é chamado filho de Maria a não ser Jesus. Nunca em nenhum texto do novo testamento, de ninguém Maria é chamada mãe, a não ser de Jesus (cf. Joa 19, 25).

1) Maria virgem antes do parto, no parto e depois do parto.

1.1) Maria virgem antes do parto:

Luc 1, 34: “Maria, porém, disse ao anjo: como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?”.

Comentário: conforme as palavras de Maria, até aquele momento, ela era virgem e, ao que parece, não tinha planos em vista de mudar aquela sua realidade.

Nota: alguns teólogos católicos julgam que Maria havia feito propósito de virgindade consagrada à Deus. Isa 7, 14: “Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a jovem concebeu e dará à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel”.

Comentário: a palavra hebraica Almah significa a jovem na flor de seus anos, o que não dá alusão direta à virgindade, mas a tradição judaica entendeu almah, no sentido virgem. Os tradutores da bíblia, em Alexandria, para o grego, no século III a.C., usaram o termo Aieparthénos (virgem) em lugar de Almah. São Mateus em seu evangelho (Mat 1, 23) utilizou a profecia de Isaías em sua forma grega: Aieparthénos, ou virgem Maria, e seu filho Emanuel, Deus conosco. Assim a própria escritura explica a escritura.

1.2) Maria virgem no parto:

Joa 1, 12-13: “Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que crêem em seu nome, ele, que não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus”.

Luc 2, 7: “E ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura…”.

Comentário: Tais dizeres insinuam a ausência das dores e da prostração que costumam acompanhar todo parto. A tradição, aliás, repetiu freqüentemente que Maria deu a luz sem dor, intencionando professar a maternidade virginal de Maria, pois ela nasceu sem a mancha do pecado original.

Joa 20, 19: “À tarde desse mesmo dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas onde se achavam os discípulos, por medo dos judeus, Jesus veio e, pondo-se no meio deles, lhes disse: a paz esteja convosco!”.

Comentário: assim como Jesus transpôs as portas, ou paredes, do local onde os apóstolos se achavam reunidos, assim também, Jesus, pelo poder do Espírito Santo, transpôs o seio da virgem Maria e nasceu no meio dos homens.

1.3) Maria virgem depois do parto - o Filho único:

Há sete textos no Novo Testamento que mencionam “Os Irmãos de Jesus”, no entanto o mais expressivo é o de Mar 6, 3: “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?”.

Leia também: Mat 13, 55s; Mar 3, 31-35; Mat 12, 46-50; Luc 8, 19-21; Joa 2, 12; Joa 7, 2-10; Ato 1, 14; Gál 1, 19 e 1 Cor 9, 5.

Vejamos então, qual o verdadeiro sentido do grau de
parentesco entre esses “Irmãos” e Jesus

A expressão “Irmãos de Jesus” foi concebida originariamente não em ambiente grego, mas no mundo Semita. Os habitantes de Nazaré, por exemplo, não falavam grego, mas aramaico. É preciso, portanto, que procuremos avaliar o sentido da palavra “irmão” em aramaico. Ora, em aramaico, assim como em hebraico (línguas afins entre si), a palavra “Irmãos” Ah, em hebraico e Aha, em Aramaico, designava não somente os filhos dos mesmos genitores, mas também, os primos ou até parentes mais remotos, pois estas línguas eram pobres em vocabulário.

No antigo testamento, vinte passagens atestam o amplo significado da palavra “Irmão”, vejamos alguns exemplos:

Leiamos Gên 11, 27: “Eis a descendência de Taré: Taré gerou Abrão, Nacor e Arã. Arã gerou Ló”.;
Leiamos Gên 12, 5: “Abrão tomou sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló,…”;
Agora leiamos Gên 13, 8: “Abrão disse a Ló: que não haja discórdia entre mim e ti, entre meus pastores e os teus, pois somos irmãos“. (Leia também Gên 14, 12.14.16).

Leiamos 1 Cro 23, 21-22: “Filhos de Merari: Mooli e Musi. Filhos de Mooli: Eleazar e Cis. Eleazar morreu sem ter filhos, mas teve filhas que foram desposadas pelos filhos de Cis, seus irmãos“.

Leiamos Tb 8, 9: Aconselhado pelo Arcanjo Rafael a casar-se com Sara, filha única de Raguel e de Ana, parentes próximos de seu pai, Tobias assim rezou a Deus: “Senhor, sabeis que não é por motivo de luxúria que recebo por mulher esta minha irmã”.

Outros exemplos: Gn 12, 8-14; Gn 29, 12.15; Gn 31, 23; Gn 37, 16; Gn 39, 15; Gn 42, 15; Gn 43, 5; 1 Cro 15, 5; 2 Cro 36, 10; 2 Reis 10, 13;1 Sam 20, 29; Lv 10, 4; Jó 19, 13-14; Jó 42, 11.

Comentário: Vale esclarecer que na tradução grega foi usado o termo “Adelphós” irmãos, apesar do grego ter a palavra primo, em virtude da língua de pregação de Jesus ser o hebraico e o aramaico, que não tinha palavra própria para dizer primo. Com base nesta verificação, não teremos dificuldade de compreender que os “Irmãos de Jesus” eram, na verdade, primos de Jesus. Ora, é sabido que entre os orientais, os parentes mais próximos eram chamados de irmãos, como até hoje se dá em alguns países notadamente a Índia, onde em alguns idiomas locais não há palavras para designar “primo” Vejamos as pistas que alguns textos do evangelho nos dão:

Mat 27, 55-56: “Estavam ali muitas mulheres olhando de longe. Haviam acompanhado Jesus desde a Galiléia a servi-lo. Entre elas Maria madalena, Maria, mãe de Tiago e de José e a mãe dos filhos de Zebedeu”. (Confira Mar 15, 40).

Comentário: essa Maria, mãe de Tiago e de José, não é a esposa de José, mas de Clopas (ou Cléofas, ou Alfeu), conforme Joa 19, 25: “Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena”.

Para melhor compreensão vejamos seguintes:

Filhos de Eli (Luc 3,23): José (pai adotivo de Jesus) e Clopas (ou Alfeu ou Cléofas). José (pai adotivo de Jesus) casou-se com Maria, mãe de Jesus. Clopas casou-se com uma mulher também chamada Maria (denominada Maria de Clopas). Dessa união, nasceram os seguintes filhos: Tiago (menor); José; Judas (não é o Iscariotes); Simão (não é Simão Pedro).

Pois bem, os nomes de Clopas (ou Alfeu ou Cléofas) designam em grego a mesma pessoa, pois são formas gregas do nome aramaico Claphai. O mais antigo historiador da Igreja, Hegesipo (180 d.C. - Memórias) conta-nos que Clopas (ou Alfeu ou Cléofas) era irmão de São José.

É muito comum nas Escrituras uma pessoa ser conhecida pôr 2 ou mais nomes diversos: O sogro de Moisés é chamado Raguel (Êxodo 2, 18 a 21) e logo depois é chamado Jetro (Êxodo 3, 1). Gedeão, depois de ter derribado o altar de Baal é chamado também Jerobaal (Juizes 6, 32). Josias, rei de Judá, é chamado também Azarias (2 Reis 15, 23; 1 Crônicas 3, 12). E no Novo Testamento o mesmo Mateus é chamado Levi: ‘Viu um homem, que estava sentado na coletoria de impostos, chamado Mateus (Mateus 9, 9). “Viu a Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria de impostos (Marcos 2, 14). O mesmo que é chamado José é chamado Barsabas (Atos 1, 23)”.

Ainda, para melhor entendimento, é necessário esclarecer que outra família também entra neste contexto, a de Zebedeu tinha por esposa Salomé e teve os seguintes filhos: João (discípulo a quem Jesus amava) e Tiago (maior).

Ainda existe a família de João (Joa 21,15), que não é João o Evangelista, que era pai de Simão (que passou a se chamar Pedro) e André.

Esse esquema explica a íntima relação que unia as famílias de Clopas e de José. Supõe-se que São José morreu antes da vida pública de Jesus. Parece então que a virgem Maria e seu divino Filho foram para a casa de seu cunhado e as duas famílias se fundiram numa só. Quando Jesus, aos 30 anos de idade deixou sua mãe para iniciar sua vida pública, Maria sempre saía acompanhada de seus sobrinhos (a mulher oriental no judaísmo antigo não se apresentava em público sozinha, mas sempre acompanha por parentes próximos masculinos), isto explica porque nos evangelhos Maria aparece freqüentemente em companhia dos “Irmãos de Jesus”, que na verdade, não eram filhos da virgem Maria, mas sim, seus sobrinhos.

Estavam ao pé da cruz:

Segundo os Evangelhos Sinóticos:

Mat 27, 55-56: “Estavam ali muitas mulheres olhando de longe. Haviam acompanhado Jesus desde a Galiléia a serví-lo. Entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José ( mulher de Clopas Jô 19, 25 ) e a Mãe dos filhos de Zebedeu”.

Mar 15, 40: “Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe. Entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago (menor) e de José, e Salomé”.

Luc 23, 49: “Os amigos de Jesus como também as mulheres, que o tinham seguido desde a Galiléia, conservavam-se a certa distância, e observavam estas coisas”.

Segundo o Evangelista João:

Joa 19, 25: “perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas e Maria Madalena“.
(Entende-se aqui que Maria de Clopas era concunhada de Maria, termo inexistente na língua hebraica. Talvez Maria de Clopas pudesse também vir a ser irmã de sangue de Maria - mãe de Jesus, porém não há como prová-lo.).

Enumerando as mulheres que estavam juntamente com Maria ao pé da cruz, Mateus, Marcos e João as identificam da seguinte maneira:

Mateus 27, 56
Marcos 15, 40
João 19, 25

Maria, mãe de Tiago e de José;
Maria, mãe de Tiago Menor e de José;
a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas

Maria Madalena;
Maria Madalena
Maria Madalena

a mãe dos filhos de Zebedeu.
Salomé

Por aí se vê que a mesma Maria que é apresentada por São João como tia de Jesus (Irmã de sua mãe) é apresentada por São Mateus e São Marcos como mãe de Tiago menor e de José. E é claro que não se trata de Maria Salomé, que é a mãe dos filhos de Zebedeu e, portanto, é mãe de Tiago Maior.

Tiago (maior) e João:

Mar 10,35: “Aproximaram-se de Jesus Tiago e João, filhos de Zebedeu e disseram-lhe: ‘Mestre, queremos que nos concedas tudo o que te pedirmos”.

Mat 20, 20: “Nisto, aproximou-se à mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e prostrou-se diante de Jesus para lhe fazer uma súplica”.
(Trata-se de Salomé, mulher de Zebedeu).

Relação dos Apóstolos:

Luc 6, 14-16: “Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro, André, seu irmão, Tiago, João, Felipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Simão, chamado zelador, Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor”.

Mat 10, 2-4: “Eis os nomes dos doze apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro, depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Felipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu e Judas Iscariotes, que foi o traidor”.
(Tadeu é o Judas que não é o Iscariotes).

Mar 3, 16-19: “Escolheu estes doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer, filhos do trovão. Ele escolheu também André, Felipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão o zelador, e Judas Iscariotes, que o entregou”.

Jesus foi filho único?

Luc 2, 41-46: “Seus Pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando o menino completou doze anos, segundo o costume, subiram para festa. Terminados os dias, eles voltaram, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. Pensando que ele estivesse na caravana, andaram o caminho de um dia, e puseram-se a procurá-lo entre os parentes e conhecidos, e não o encontrando, voltaram a Jerusalém à sua procura. Três dias depois, eles o encontraram no templo, sentado em meio aos doutores, ouvindo-os e interrogando-os”.

Comentário: Os dias de festa da Páscoa eram 7 (sete), contando os dias de viagem de ida e volta, a Sagrada Família deve ter ficado cerca de quinze dias fora de casa. Ora, Maria e José não podem ter deixado no lar, por tanto tempo, filhos pequenos, donde se conclui, logicamente, que aos doze anos de idade Jesus era filho único.
Por que nunca os evangelhos chamam os “irmãos de Jesus” de “filhos de Maria” ou de “José”, como fazem em relação ao Nosso Senhor? E como, durante toda a vida da Sagrada Família, o número de seus membros é sempre três? A fuga para o Egito, a perda e o encontro de Jesus no Templo, etc…

Joa 19, 26-27: “Jesus, então, vendo sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse a sua mãe: mulher, eis o teu filho! Depois disse ao discípulo: eis a tua mãe! E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu em sua casa”.Comentário: Jesus ao morrer confiou sua mãe a João evangelista, filho de Zebedeu, membro de outra família. Este gesto seria incompreensível se Maria tivesse outros filhos em casa, já que segundo a lei de Moisés teria que ficar aos cuidados do filho mais velho. Jesus é dito “suposto filho de José” em Luc 3, 23; é dito “o filho de Maria” (com artigo) -”uiós Marias”, em Mar 6, 3. O Evangelho nunca diz: “A mãe de Jesus e seus filhos”, embora isto fosse natural se ela tivesse outros filhos (ver Mar 3, 31-35 e Ato 1, 14).

Objeções para a virgindade de Maria

1) “Antes de coabitarem” (Mat 1, 18):

“… Antes de coabitarem, ela concebeu por obra do Espírito Santo”.

Comentário: Com esta expressão, o Evangelista dá a entender que a concepção virginal de Cristo se deu antes que a Virgem Maria estivesse vivendo na casa de seu castíssimo esposo. O que não significa que tenham coabitado depois. Como alguém que diz, fulano estava dormindo e morreu antes de acordar. Não significa que depois tenha acordado. Que não houve coabitação se constata também quando o mesmo Evangelista narra que São José, percebendo que sua esposa concebera, não conhecendo o mistério, mas não querendo difamá-la, resolveu “rejeitá-la secretamente”. Mas o anjo do Senhor apareceu-lhe em sonhos tranqüilizando-o e aconselhando-o a recebê-la em casa, porque ela concebera por obra do Espírito Santo ( Mat 1, 20-24 ).

2) Expressões “Até que…” ou “Até o dia em que…” (Mat 1, 25):

“Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus”.- Dando a entender que São José a teria conhecido após o Nascimento de Jesus.

Leiamos também os seguintes textos sagrados:

2 Sm 6, 23: “E Micol, filha de Saul, não teve filhos até o dia da sua morte”.
Comentário: Ninguém deduziria daí que os teve depois da morte.

Sal 110, 1: “Oráculo de Iahweh ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés”.
Comentário: Isto não significa que depois de vencidos os inimigos o Messias deixará de se sentar à direita do pai.

Gên 28, 15: “Eu estou contigo e te guardarei em todo lugar aonde fores, e te reconduzirei a esta terra, porque não te abandonarei enquanto não tiver realizado o que te prometi”.
Comentário: e depois que Iahweh realizar aquilo que prometeu o abandonará?

Gên 8,7: “O corvo de Noé soltou após o dilúvio, Não voltou à arca até que as águas secassem”.
Comentário: Isso não quer dizer que, depois do dilúvio, o corvo voltou à arca”.

Mat 28, 20: “E ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”.
Comentário: E depois da consumação dos séculos não estará mais conosco?

Esclarecimento

A expressão “até que” (ou “até o dia em que”) corresponde ao grego “Heos Hou”, ao hebraico “Ad ki” e ao latim “donec”. Esta partícula na Escritura ocorre para designar apenas o que se deu (ou não se deu) no passado, sem indicação do que haveria de acontecer no futuro.

Nota: Às vezes, edições mais recentes da Bíblia substituem o “até que” por “a fim de que”, “sem que”, “sem” ou semelhante. Mas o caso é sempre o mesmo.

3) “O seu filho primogênito” (Luc 2, 7):

“E ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura,…”.

Esclarecimento

O termo primogênito não significa que a mãe de Jesus tenha tido outros filhos após ele. Em hebraico “Bekor“, que quer dizer primogênito, podia significar simplesmente o bem-amado, pois o primogênito é certamente aquele dos filhos no qual durante certo tempo se concentra todo amor dos pais; além disso, o primogênito era considerado pelos Hebreus, como de especial amor da parte de Deus, pois devia ser consagrado ao senhor desde os seus primeiros dias. ( cf. Lc 2, 22; Ex 13, 2; Ex 34, 19 ) e ele devia cumprir, logo no 1º mês, a lei do resgate. (Núm. 18,16) Essa lei não esperava pelo segundo filho para que o primeiro fosse tido e tratado por toda vida como primogênito.

Vejamos os seguintes textos sagrados:

Êxo 13, 2: “Consagra-me todo primogênito, todo o que abre o útero materno, entre os filhos de Israel. Homem ou animal será meu”.

Êxo 34, 19: “Todo o que sair por primeiro do seio materno é meu: todo macho, todo primogênito das tuas ovelhas e do teu gado”.

Zac 12, 10: “Derramarei sobre a casa de Davi e sobre todo habitante de Jerusalém um Espírito de Graça e de Súplica, e eles olharão para mim. Quanto àquele que eles transpassaram, eles o lamentarão como se fosse a lamentação de um filho único; eles o chorarão como se chora sobre o primogênito“.

Comentário: a palavra primogênito podia ser sinônima de “unigênito”, pois um e outro vocábulo na mentalidade semita designam o bem amado. Mesmo fora da Terra de Israel, podia chamar-se primogênito o menino que não tivesse irmão nem irmã mais jovem. É o que atesta uma inscrição sepulcral judaica datada de 5 a.C. e descoberta em Tell-el-Yedouhieh ( Egito ), no ano de 1922. Lê-se nela que uma jovem chamada Arsinoé morreu “nas dores do parto do seu filho primogênito”

4) “Todo macho que abre o útero” (Luc 2, 23):

“Conforme está escrito na lei do Senhor: todo macho que abre o útero será consagrado ao senhor”, (Leia também Êxo 13, 2.12.15).

Comentário: Utiliza-se este trecho da Sagrada Escritura para argumentar que Maria não teria sido virgem no parto, pois nesse texto, São Lucas aplica a Jesus “o macho que abre o útero”, a isto responde-se: esta expressão “O macho que abre o útero” ou, conforme outra tradução, “O filho que abre o seio materno” é clássica da lei de Moisés para designar o primeiro (ou também o único) filho. Tais palavras não têm em vista um fenômeno fisiológico, mas apenas a posição jurídica do filho na família.